Elevação dos Juros

Desde a decisão do Copom, aqui noticiada, de aumentar os juros básicos da economia (taxa Selic) pela primeira vez em seis anos, tenho recebido muitas dúvidas e pedidos de comentários partindo de diversas fontes. Procurarei responder aqui, de maneira muito breve, quase telegráfica, as principais questões levantadas.

Antes que nada, esclareço que, além da Universidade, meu trabalho cotidiano se dá na área de líquidações extrajudiciais do Banco Central e, portanto, não tenho qualquer participação direta ou indireta nos processos de decisão da política monetária.

Além disto, ressalto por vinte anos escrevi reiteradamente contra o rentismo neste país e, especificamente, contra a atuação dos integrantes do que apelidei de PJA (Partido dos Juros Altos) no Brasil.

Feitas estas ressalvas, chamo a atenção de todos para o fato de que existe um contexto importante que é preciso caracterizar para que qualquer análise da recente elevação dos juros se mostre relevante.

A condução da política monetária feita pelo BC durante o ano passado foi alvo de preocupações expressas por diversos economistas. Diante da forte contração da atividade econômica e do emprego em decorrência do combate às pandemia, surgiu a preocupação de que o Banco Central estivesse deixando o juro real cair para patamares menores do que seria benéfico para a economia.

Tais preocupações tinham fundamento, como ficou comprovado pela disparada do câmbio que resultou em que a moeda brasileira sofresse a maior desvalorização frente ao dólar no planeta. Além de efeitos indesejáveis sobre preços (como os dos combustíveis e de uma série de alimentos), a desvalorização cambial causada pela descalibragem dos juros desalinhou os preços relativos da economia no meio da pior recessão já registrada no Brasil.

A elevação recente da taxa Selic seria uma decorrência, portanto, dos dirigentes do BC aparentemente estarem tentando desfazer, ao menos em parte, os efeitos produzidos pelo câmbio excessivamente desvalorizado em 2020.

Se levarmos em conta o nível atual da inflação e (importante) a variação no índice de preço das commodities, o efeito contracionista direto que esta elevação da juros recém-decidida terá deve ser desprezível, neste momento.

Por outro lado, caso esse aumento nos juros venha a produzir uma valorização do câmbio, i.e. uma apreciação do real, o seu efeito total sobre a atividade econômica poderá ser levemente positivo. De todo modo, somente o fato de parar de desvalorizar o real já diminui o efeito total negativo que o câmbio está tendo sobre a demanda agregada.

Portanto, nesta ocasião, o aumento da taxa Selic não visa combater uma suposta inflação de demanda que, como vários interlocutores indicaram, não existe neste momento. Antes, parece constituir uma tentiva de dar alguma estabilidade ao câmbio na tentativa de reverter, ainda que parcialmente os estragos produzidos pela desvalorização do real ao longo do último ano.

(Para os que quiserem um exame mais detalhado da origem do problema, sugiro a leitura deste breve artigo dos profs. F. Serrano e J. Braga, datado de abril de 2020.)


⌘⌘

⌘⌘⌘

Lá vai o Hélio

Aqui na minha bolha ortopédica eu somente soube hoje. Mas se vocês já sabiam, desculpem a comunicação atrasada.

Morreu na semana passada Hélio Fernandes, figura rara de jornalista brasileiro, combatente e insubmisso diante do poder político e do poder econômico . E, invariavelmente, reto como um fio de prumo.

Com seu corpo franzino (“é magro de tinhoso”, segundo um amigo comum) e sua energia interminável, Hélio tocava os sete instrumentos para publicar a “Tribuna da Imprensa”. Começou o jornal numa gráfica emprestada e, por 59 anos, cobriu os piores momentos da história recente da triste periferia que habitamos.

Hélio Fernandes em gesto típico de quando acionava sua metralhadora jornalística

Sem ser comunista (Hélio era católico), tinha o mesmo tipo de destemor e firmeza de princípios do seu contemporâneo João Saldanha – e fez tanto, ou mais, pela dignidade do jornalismo nesta sociedade brutal e hipócrita, do que Saldanha fez pelo nosso futebol.

Foi preso e processado incontáveis vezes pela ditadura empresarial-militar de 1964-85, mas sua hombridade ganhou o respeito até dos perseguidores. (Um contra-parente, procurador do Ministério Público Militar que foi encarregado diversas vezes de acusar Hélio sob a Lei de Segurança Nacional, acabou virando seu amigo de copo, ainda em plena ditadura.)

Até recentemente, com 100 anos de idade, ainda escrevia diariamente na internet sobre a tragédia atual deste país que não chegou a sê-lo.

Era o irmão relevante e engajado do celebrado Millôr Fernandes, mais conhecido do que Hélio nos círculos perfumados da Zona Sul carioca, exatamente porque era o antípoda do irmão e não incomodava em nada os interesses da oligarquia local.

E lá vai o Hélio, sujo de tinta de impressão, ao encontro do seu Criador, que certamente lhe dará as recompensas que não teve em vida.


⌘⌘

⌘⌘⌘

O apagar das luzes



Quem a pôs neste socrócio? -Negócio.
Quem causa tal perdição? -Ambição.
E o maior desta loucura? -Usura.
Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que o perdeu
Negócio, ambição, usura.

Gregório de Mattos, Juízo Anatômico da Bahia

Os versos em epígrafe foram escritos há 350 anos, descrevendo a Bahia, capital de então, como sinédoque para o Brasil. Basta olhar em volta para ver o quanto não avançou, quatro séculos depóis, esta sociedade provinciana e atrasada, onde “todos os que não furtam [são] muito pobres” – como escreveu o mesmo Gregório de Mattos em ainda outro poema.

Há cem anos, as elites locais procuravam macaquear o comportamento europeu, construindo simulacros, em ponto menor, de museus, teatros e galerias de Paris – de onde se importaram até pombos e pardais para as ruas. Hoje qualquer prentensão, mesmo caricata, de figurar no tal concerto das nações, ou mesmo de fazer dos seus habitantes uma nação, foi abandonada e o nosso “destino manifesto” de país subdesenvolvido e periférico foi abraçado sem disfarces.

Na França contemporânea, multiplicam-se os relatos sobre a marginalização crescente da racionalidade, do método cienfico, da laicidade, da literatura e das artes em geral,1« J’allume une bougie, je sors en plein jour dans la rue, je cherche un partisan des Lumières, et je ne trouve que des douteurs ou des névrosés plus ou moins décérébrés. Les Lumières ? Elles sont désormais introuvables, me dit l’un, elles se sont aveuglées, reprend un autre, elles sont dépassées et ringardes, affirme un troisième, elles ont préparé les totalitarismes, ajoute le plus effronté. Voltaire ? Vous plaisantez, son programme est nul. […]Un nouveau clergé est venu se greffer sur l’ancien, une nouvelle lourdeur physique et morale organise l’ignorance et ses intérêts. Laideur, bêtise, conformisme, résignation, servilité, violence, mensonge, cupidité, voilà l’éternel programme de l’Obscurantisme — ce beau mot doit être repris et précisément appliqué avec l’ironie qui convient. »
Philippe Sollers, “Mouvement des lumières”, 2006
em decorrência da dinâmica massificadora e simplificadora de conteúdos intelectuais que rege o padrão mercadológico de consumo no séc. 21. Se o país que servia como modelo de civilização para nossos avós e bisavós vivencia uma tal degradação de seus paradigmas culturais, quais são as perspectivas para um país que empobrece materialmente há 6 anos2Isto caso consideremos a evolução da renda nacional no conceito de paradidade de poder de compra, mais favorável ao desempenho brasileiro. Se considerarmos a renda do páis sob o conceito mais simples de preços correntes, já são 9 anos de que queda contínua. e que, pari passu, marcha voluntariamente para a vanguarda do atraso mundial no seu padrão de convívio social?

É neste quadro que se insere a notícia de que mais uma livraria fechou no Rio de Janeiro. Agora foi a vez da pequena Timbre, que funcionava no segundo andar do shopping da Gávea, última livraria do bairro, que chegou a ter quatro nos anos 80, quando me mudei para lá.

As livrarias brasileiras estão se fechando e continuarão sendo fechadas. De cerca de 3500 em 2012, o total caiu para 2500 até 2019. Não há ainda números para os dois anos do atual governo, mas talvez não seja uma projeção temerária o dizer-se que o total deve haver caído ainda mais. Antes que o idiota de plantão se manifeste, vale notar que este fenômeno não ocorre apenas por conta dos fatores microeconômicos que tornam outros modelos de negócios mais rentáveis no contexto de uma sociedade urbana de massas. Se assim fosse, haveria ainda tantas livrarias por aqui (nos bairros de maior poder aquisitivo, obviamente) quantas há em outros países com nível de renda e de escolaridade semelhantes aos nossos.

Hoje, temos pouco mais de uma livraria para cada 100 mil habitantes. Isto é cerca de dez vezes menos do que na França – país, que, hoje, não está nem entre os 10 primeiros desse ranking – e aproximadamente metade do que tem a Colômbia. Estamos no mesmo patamar da África do Sul, nosso rival em diversos critérios de classificação de países com a pior desigualdade e ditribuição de renda do mundo. Ainda não alcançamos a Nigéria que tem menos de 0,5 livraria para cada 100 mil habitantes. Mas somos brasileiros e não desistimos nunca – ainda chegaremos lá.

Falar a verdade é tão desagradável a todos, que sempre é preciso refletir muito antes fazê-lo. Mas falando sozinho, aqui, não há de ser impróprio. O livro virou uma impossibilidade, quase um absurdo no Brasil. O próprio vídeo já começou a ficar excessivamente complicado para o que o país se tornou – conteúdo demais. Agora não pode durar mais que um minuto (de preferência, ficando nos 15 segundos) e “sem falação”, sem palavras, só com imagens que se sucedem num ritmo frenético – em geral de alguma pessoa ou grupo dançando, pulando e dando cambalhotas. Nada que um chimpanzé não consiga fazer é bem recebido: não gera “hits,” “likes” ou “follows” (como em “dá um follow aí…”).

Não é mais tempo de passar uma hora (“perder uma hora”) percorrendo as estantes de uma livraria ou – menos ainda – de ficar três horas sentado numa biblioteca lendo e anotando volumes que não podem circular, como fiz por tantos anos.

É hora de ir para a “academia”. Nenhuma relação com a Ἀκαδήμεια de Platão – que poucos e cada vez menos sabem sequer que existiu. “Academia” é como chamam na macacolândia o local onde se vai transpirar em aparelhos cada vez mais caros, criados para o uso e o incremento da força bruta e para cuidar da aparência física.

É tempo de ir para o “salão”. Nenhuma relação com o Salon onde anualmente a arte era divulgada, renovada e, mesmo, revolucionada na antiga Paris do séc. XIX. O “salão” no fim do mundo é onde homens e mulheres vão passar horas sentados para emplastarem seus rostos e para terem seus pêlos arrancados, pintados e cortados nas cores e formatos mais grotescos, de modo que seus donos possam tentar atrair visualmente a atenção do resto da macacada. Até porque se tentassem fazê-lo com palavras, a incapacidade de formulação dos emissores e de compreensão dos receptores tornaria o esforço em mais uma “perda de tempo.”

Exercício físico, não exercício da palavra; distração, não concentração; aparência, não substância; gratificação, não recompensa; adorno, não arte; exclamação, não diálogo; fama, não reconhecimento; impressão/intuição, não razão; ouro, não virtude; opinião, não verdade; crepúsculo, não alvorada.


⌘⌘

⌘⌘⌘

Melhorando o ambiente de negócios

Ao longo do ano de 2020, o presidente do Brasil utilizou todas as plataformas de comunicação social à disposição de seu cargo para fazer merchandising do medicamento Reuquinol (produzido pela Apsen Farmacêutica, de propriedade da família Spalicci), propiciando um forte aumento no consumo privado do produto.

Os efeitos empresariais das ações da mais alta autoridade do Estado brasileiro foram, contudo, mais além. Por força de sua advocacia pública do uso de remédios que não têm indicação médica para o tratamento da Covid-19, as compras governamentais desses medicamentos (à base de hidroxicloroquina, cloroquina, azitromicina e ivermectina) feitas pela União, por estados e municípios, também aumentaram. Até agosto do ano passado, órgãos públicos no Brasil já haviam gasto pelo menos R$ 18 milhões para adquirir essas substâncias que, segundo o consenso médico internacional não, demonstraram ter qualquer efeito sobre o curso da doença causada pelo novo coronavírus. O próprio Ministério da Saúde declarou, em dezembro, que previa dispender R$ 250 milhões para ressarcir as drogarias privadas das compras de hidroxicloroquina e a azitromicina no programa de distribuição gratuita “Farmácia Popular”.*Esta cifra inclui a compra de difosfato de cloroquina fornecida pelo grupo Sul Minas à União, a um preço de R$ 1,8 mil por quilo, que representa 267% do preço cobrado pelo mesmo grupo ao governo federal dois meses antes (R$ 488/quilo). Chama a atenção o fato do “grupo Sul Minas’ ser uma microempresa (Eireli) de Londrina-PR, cuja razão social traz como atividade principal o teleatendimento e que tem uma única sócia, a Sra. Maria Auxiliadora dos Reis. Dado o comum do nome, a sócia da empresa que teria importado da Índia o difosfato de cloroquina para a venda à União, pode ou não ser homônima da pessoa inscrita em 2014 como beneficiária do programa “Renda Família Paranaense”.


Nas últimas semanas, tive ocasião de comentar por diversas vezes – em eventos de que participei e em discussões informais com colegas e amigos – que a notória inépcia do atual governo federal em resolver o problema de imunização dos brasileiros neste momento de ápice da mortalidade da pandemia poderia criar uma ótima oportunidade para lucrar-se muito vendendo vacinas no Brasil – um mecanismo que os entusiastas do liberalismo econômico chamam de “arbitragem”.

Não tardou muito e o presidente da República, mais uma vez, demonstrou sua “proatividade comercial”, buscando gerar ganhos privados em cima da epidemia que já produziu 215 mil cadáveres no país que governa.

Desta feita, o Sr. Jair Bolsonaro escreveu à farmacêutica Astra Zeneca, em nome do governo brasileiro, perguntando se não dava para liberarem um cotazinha de vacinas para os donos de hospitais e laboratórios privados brasileiros poderem vendê-las para as classes média e alta do país, desenganadas de ter acesso à vacinação pública pelo Ministério da Saúde tão cedo.

Não há como duvidar da satisfação que teriam os empresários da saúde locais, caso esse negócio da China (ou melhor, da Inglaterra) viesse a se materializar. Com tamanha melhora no seu “ambiente de negócios”, os donos dessas empresas poderiam aumentar bastante as suas encomendas em lojas de chocolate (setor muito caro ao atual presidente da República) nos próximos exercícios fiscais. Um aumento equivalente, no mínimo, ao valor de vários imóveis no Rio de Janeiro.

Mas como estão envolvidos no jogo grande dos mercados de fármacos dos países ricos – onde, por conta das aparências, dá muito prejuízo ser acusado de estar traficando com as vidas de toda uma população apenas para faturar um troco extra – os dirigentes da multinacional sueco-inglesa enviaram ao mandatário tupiniquim uma resposta lacônica, que expõe a natureza da gestão feita pelo nosso presidente pelo que de fato é: uma iniciativa sem relação com aquisição das vacinas pelo poder público brasileiro para uso do SUS.

“No momento, todas as doses da vacina estão disponíveis por meio de acordos firmados com governos e organizações multilaterais ao redor do mundo, incluindo da Covax Facility,**Consórcio de países coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) não sendo possível disponibilizar vacinas para o mercado privado”.

Quem sabe agora as nossas elites letradas e intelectualizadas parem de tentar classificar o chefe do Executivo como sendo um “fascista”, e passem a vê-lo, simplesmente, como um facínora.


⌘⌘

⌘⌘⌘

Mensagem de Ano Novo à Juventude Comunista

Jovens amigos e companheiros,



Não venho aqui formular votos abstratos ou manifestar esperanças vagas e de cunho mal disfarçadamente religioso nesta passagem de ano. Essas expressões formulaicas servem apenas para reforçar a inconsciência dos alienados e para estimular as ilusões infantis dos voluntaristas. Não têm qualquer serventia para nós que, por opção e circunstância histórica, nos posicionamos na vanguarda da luta contra a exploração capitalista e pela emancipação da classe trabalhadora.

Quem se propõe a mudar a realidade precisa, antes de tudo, compreender essa mesma realidade. É preciso saber, portanto, que as circunstâncias objetivas serão ainda mais desfavoráveis e nossas lutas ainda mais duras neste ano que se inicia, do que foram no que terminou.

As três principais tarefas que nos tocam – conscientizar, mobilizar e organizar de maneira consistente e relevante a massa popular e os seus poucos apoiadores na classe política e na intelectualidade – terão sua dificuldade tão aumentada que, em diversos momentos e em alguns terrenos de luta, os avanços serão, concretamente, inviáveis.

Por isto, mais do que nunca teremos a necessidade de uma grande clareza teórica na seleção dos objetivos que devemos perseguir e daqueles que será preciso, momentaneamente, deixar de lado. A esquerda burguesa estará empenhada em cooptar a firmeza e a energia da nossa militância para seus exercícios de composição fisiológica com a agenda da direita em prol de objetivos eleitorais para 2022 e, simultaneamente, em impor a primazia das pautas reivindicatórias de direitos individuais em relação à luta central pelos direitos coletivos– sociais e econômicos – como forma de afastar as forças populares do embate concreto com o capital e seus funcionários, e de esvaziar o caráter de luta de classes do nosso enfrentamento com a burguesia.

Contudo, este ano de 2021 será, exatamente, o momento em que, ao cabo de seis anos contínuos de recessão econômica e da retirada de direitos dos trabalhadores, a profunda incompetência técnica do atual governo virá se somar ao acirramento das disputas predatórias entre os dirigentes políticos das forças de direita para criar tanto um vácuo decisório como uma degradação rápida e profunda nas condições materiais de vida dos trabalhadores, deteriorando ainda mais a situação do emprego, da renda familiar e do seu acesso aos mecanismos de proteção social.

Justamente neste momento, portanto, é imperativo que os comunistas usem de toda a sua visão e de todo o seu empenho para impedir que as pautas de resistência à opressão de minorias se sobreponham e se autonomizem em relação à luta contra a exploração capitalista, uma vez que o aprofundamento das contradições desta poderá fazer muito pelo avanço da consciência dos interesses de classe no seio da massa brasileira. É preciso dar força aos sindicatos, apoiar as reivindicações salariais e contratuais , ocupar o espaço público em prol das paralisações setoriais e locais, pavimentando o caminho para uma greve geral.

Portanto jovens amigos e companheiros, propor que tenhamos força, que reunamos e arregimentemos nossas forças, não equivale, neste contexto, a um voto oco e festivo de inicio de ano. Como também não o é, aqui, a exortação para cultivarmos e preservarmos nossa saúde. Trata-se de necessidades e de deveres que se impõem a quem somos, vitais para o desempenho dos papéis que tocam a cada um de nós neste momento singular da história do nosso povo.

O ímpeto da nossa luta revolucionária depende intelectualmente do acerto da nossa análise materialista da circunstância histórica, mas também depende materialmente da nossa capacidade de congregação e proteção mútua. Porque o primeiro dever do militante comunista é o de sobreviver e fazer sobreviver nossos camaradas, para que possamos dar seguimento ao combate no dia seguinte e no outro e no outro, até a vitória do socialismo e da justiça em nosso país.

⌘⌘

⌘⌘⌘

“Mão Amiga” afaga angústias do povo

Vale examinar o Ofício encaminhado pelo Exército (Comando da 1ª RM) ao TCU para prestar contas sobre o alegado superfaturamento na compra de difosfato de cloroquina de fornecedores privados. No texto desse documento é feita toda uma construção argumentativa para desacreditar a denúncia, alegando-se que as comparações de preços que revelam o superfaturamento são “descabidas”. A versão apresentada pelos militares é a de que a alta de 167% no preço pago meros dois meses antes à mesma empresa privada seria natural por causa da alta na demanda.

Entratanto, esses mesmos militares que redigiram e aprovaram a emissão do ofício em questão se esqueceram de mencionar ali que: a) foram procuradas somente duas empresas, uma delas contactada um mês antes da outra; b) que esta empresa já tinha estoque no Brasil, que não foi afetado, portanto, pela alta do dolár; e c) que o Exército não conseguiu responder aos questionamentos do seu próprio departamento jurídico antes da compra.

No mesmo documento, o Exército alega que a compra precisava ser feita de qualquer forma, pois o dano de não comprar seria “irreparável” para a saúde pública, sem apresentar qualquer fundamento para essa alegação.

Image


A contradição acima implícita é explcitada quando, em outro ponto do documento, o próprio Exército admite que não há qualquer prova da eficácia da cloroquina frente à Covid-19:

Image


A pergunta inevitável então é : se não havia qualquer indício científico de que a cloroquina seria eficaz contra a Covid-19, a motivação das expressivas compras feitas seria a de criar bons sentimentos na população, dando-lhes um placebo? A resposta encontrávelno documento oficial do Exército parece ser que sim, dado que se vale do seguinte argumento para justificar a compra da cloroquina: “seria o equivalente a produzir esperança a milhões de corações aflitos com o avanço e os impactos da doença no Brasil e no mundo”.

Image


Como é possível afirmar, num mesmo documento, que havia premência em comprar a cloroquina “cujo objetivo é salvar vidas diante da pandemia causada pelo Covid-19*Na verdade a pandemia foi causada pelo vírus Sars-CoV-2. A Covid-19 é a doença causada por esse vírus. e, ao mesmo tempo, que “não há tratamentos consagrados pela comunidade científica para a Covid-19“? Como reconciliar a pretensão de legitimidade médica para o uso desse medicamento comprado em larga quantidade, com a admissão de que o propósito de usar a cloroquina é “produzir esperança” em “corações aflitos“?

Ressalte-se que aqui se trata de uma manifestação formal, por escrito simples de uma insituição permanente do Estado sobre a crise de saúde pública mais grave vivida pelo país em cem anos. O fato de que nos diversos escalões do Exército ninguém impediu que um texto de tal primarismo científico e, mesmo, lógico– incorrendo em diversos casos de non sequitur e lançando mão de apelos sentimentais baratos1Além da “esperança para mihões de corações aflitos” há também “O LQFEx é a mão amiga do Exército Brasileiro junto à sociedade, entre outros – fosse expedido em nome da instituição é revelador do quanto o Brasil retrocedeu e da clareza da sua condição de república bananeira.

Diante de todo o exposto, fica patente que o principal dano ao erário causado pela compra da cloroquina pelo Exército não se originou de um possível superfaturamento de 167% em alguns lotes – que é o objeto de indagações do MPF. O verdadeiro dano vem do mero fato de terem sido adquiridos mais de 5 milhões de comprimidos de cloroquina para “distribuição aos estados”. Na verdade, a razão para tanto é que muitos dos estados devolveram o medicamento (cerca de 1,45 milhão de comprimidos), outros deixaram a cloquina estocada, mas sem uso (1,25 milhão de compromidos), e o próprio Exército ficou com estoque de 400 mil comprimidos.

Ou seja, do total de comprimidos comprados a dois laboratórios privados (sem licitação), 3,3 milhões de comprimidos ficaram sem uso por conta de sua inutilidade no tratamento da epidemia que castiga a população. Como diz a voz do povo, “aquilo de que não se precisa, é caro até de graça.”

⌘⌘

⌘⌘⌘

As voltas que o mundo dá

Quem acompanhou essa discussão sabe que, quando André Lara Resende resolveu voltar ao debate público sobre economia no Brasil (que, por questões ligadas ao subdesenvolvimento institucional, intelectual e antropológico do país, tem lugar quase que exclusivamente em jornais diários, revistas de notícias, programas de tevê e, hoje, da internet), o antigo membro da equipe que implantou o Real em 1994 supreendeu seus pares ao passar a aceitar publicamente algumas das proposições mais básicas preconizadas pela teoria das finanças funcionais de Abba Lerner.* Menos supreendente foi a sua insistência em defender, simultaneamente, os principais axiomas da abordagem neoclássica da teoria econômica.

A intenção era, nitidamente, a de aproveitar as recompensas que os problemas macroeconômicos dos países ocidentais desde a “Grande Recessão” deflagrada em 2007-8 criaram para quem se dispusesse a criticar o dogmatismo do mainstream, sobretudo no que toca à suposta necessidade da consolidação (que sempre prefiro chamar pelo nome técnico mais correto de “contracionismo”) fiscal permanente.

O truque, porém, era aproveitar a oportunidade de faturar pontos fáceis com uma crítica tornada óbvia pelos fatos, mas sem apresentar essa crítica como uma condenação dos fundamentos da teologia marginalista, que tanto consola capitalistas e seus funcionários – na política e no mercado – em seus momentos de agonia e tribulação. Ou seja, Lara Resende queria épater les bourgeois o suficiente para se tornar o ponto de referência da discussão, mas sem tocar fogo no parquinho.

Reparem, porém, como essa prática de falar a verdade em discussões de fundo acadêmico/intelectual é traiçoeira. A própria realidade dos fatos se encarrega de ir cerceando cada vez mais os espaços para que quem adere a essa prática, mesmo parcialmente, possa seguir defendendo versões incorretas e/ou distorcidas dos mecanismos causais acerca de fatos correlatos ou adjacentes no mesmo domínio de conhecimento. Em outras palavras, a velha máxima dos vigaristas, de que “a melhor mentira é aquela que contem alguns elementos da verdade”, é um tiro que sai pela culatra quando se trata deste tipo de discussões.

Quem leu a mais recente entrevista de Lara Resende pôde ver ali, com clareza meridiana, como a pressão da realidade acabou levando um economista oportunista, mas inteligente, a abandonar as cautelas no sentido de não ferir as suscetibilidades dos ortodoxos e por fim a abraçar sem reservas as posições que o grupo de economia política da UFRJ defende desde pelo menos os anos 1990 – e que nos valiam a classificação de “pouco sérios” da parte do clero marginalista.

Em 1990, assisti ao vivo na BBC o discurso de despedida de Margareth Thatcher na Câmara dos Comuns, após ser derrubada da liderança do seu governo. Nele, a temida dirigente conservadora, em seu momento público de derrota, fez um desabafo que caberia sob medida após da leitura da entrevista do prof. Lara Resende: It’s a funny old world. Ou, como dizia o anúncio da transportadora carioca “A Lusitana” na Av. Brasil de outrora: “O mundo gira / A Lusitana roda.”


* Também compartilhadas pela Modern Monetary Theory (MMT) do prof. R. Wray, apesar desse autor insistir que inventou tudo sozinho.

⌘⌘

⌘⌘⌘

Um pedido aos amigos indignados

Como não tenho condições práticas de responder de forma individual às (literalmente) dezenas de textos, postagens, comentários notas e artigos que me foram enviados das procedências mais diversas acerca do crime praticado ontem numa filial de supermercado e registrado em vídeo, peço que os remetentes me desculpem por esta reação em forma de circular.


Sou inteiramente favorável a que se proteste, que se grite e que se atinja a propriedade de empresas e indivíduos quando são flagrados patrocinando atrocidades físicas contra pessoas desprovidas de poder econômico e político, a quem distinguem pela sua cor, credo ou sinais exteriores de pobreza. Quase sempre as pessoas de posses consideram a dor e a perda alheias somente quando sofrem perdas no seu próprio patrimônio ou na sua renda. Às ruas, portanto.

Contudo, peço encarecidamente que me poupem de discursos diversionistas que procuram fazer crer que o homicídio doloso, com todas as agravantes possíveis, que testemunhamos ontem no Rio Grande do Sul, é fruto da perniciosidade ou malevolência de tal ou qual empresa – ou, pior, do fato da empresa ser sediada no país tal ou qual.

A origem dessa violência ubíqua e ostensiva não é uma dada empresa, nem se deve a que ela seja estrangeira ou não. A violência que foi exposta em imagens explícitas para todo o país é a violência de classe, e a violência de classe é a tônica das relações sociais no Brasil desde que o país existe. O uso contínuo da violência física contra os membros da base de nossa pirâmide social é cultivado e mantido pelo conjunto da classe dominante nacional – afirmação que é, em si, é uma platitude, pois, se não fosse por ela sustentada, já teria deixado de existir há muito tempo, por definição.

Em sua constituição e funcionamento reais – e não no palavrório liberal do discurso público e das normas jurídicas brasileiras – as instituições do nosso Estado executam essa violência de modo sistemático e, no mais das vezes, ávido. E “às favas os escrúpulos de consciência,” como disse aquele servidor-cidadão exemplar, o militar educador Jarbas Passarinho, ao assinar a supressão dos direitos civis dos seus conterrâneos.

O que a tecnologia moderna está permitindo, hoje, é que se possa capturar ao vivo a prática da violência de classe no cotidiano, tal qual vigora nesta sociedade, ininterruptamente, há 500 anos. Não há qualquer novidade nos fatos documentados, senão na documentação dos fatos, que agora impossibilita o negacionismo do passado.

Antigamente, quando relatávamos às pessoas de bem do nosso círculo de relações os descalabros de agressão e extermínio contra homens e mulheres do povo que ocorriam todos os dias, por todo o Brasil, ouvíamos invariavelmente protestos de “que exagero!” ou de “também não é tanto assim!“. Agora, o fluxo ininterrupto de imagens da realidade brasileira disponibilizadas aos que dela estão escudados (ou assim acreditam), desautorizam o exercício dessa ignorância conveniente e voluntária.

De tabela, a tecnologia agora também permite mostrar, sem sombra de dúvida ou margem para tergiversações, que a classe dominante brasileira não depende hoje, como de resto nunca dependeu, exclusivamente do braço do Estado para massacrar os pobres, pardos e pretos do país, quando e como bem queira. Espancam e matam diretamente nas suas propriedades privadas, desde sempre, com seus jagunços, capatazes pistoleiros e seguranças.

Por isto é que não é possível aceitar, nem factual nem eticamente, que em 2020 alguém venha discorrer sobre “impunidade” no Brasil e esteja se referindo ao assaltante da esquina ou ao barnabé corrupto que embolsou propinas. Para falar de impunidade neste país retrógrado e violento, ou falam de Brumadinho e das mortes anuais em deslizamentos e enchentes; ou falam dos 500 mil assassinados a tiros nos últimos 10 anos (dos quais cerca de 6% foram mortos por policiais); ou falam das 500 mil mortes por ano em doenças evitáveis – ou tenham algum senso de vergonha e calem a boca.


⌘⌘

⌘⌘⌘


Mentiras, mentiras descaradas e estatísticas

“Figures often beguile me, particularly when I have the arranging of them myself; in which case the remark attributed to Disraeli would often apply with justice and force: ‘There are three kinds of lies: lies, damned lies, and statistics’.”

Mark Twain

Atualmente os comentaristas apresentados como especializados em política ou relações internacionais na mídia brasileira e consultados sobre a disputa eleitoral nos EUA parecem estar de posse, todos, de um mesmo, único fato: o candidato democrata, Joe Biden, lidera Donald Trump nas pesquisas de opinião por 12%. O número virou uma espécie de mantra, ou abertura de ladainha, repetido com tamanha frequência que poderia sugerir que se trata de uma cifra dotada de alguma significação descritiva especial – algo assim como o “5” aposto pela imprensa local ao nome da vacina russa “Sputnik”, cujo “V” original (em “Sputnik V”) denotava, apenas, “vacina”.

Em que pese o destaque dado aos “12%”, é de conhecimento geral que sondagens de intenção de voto agregadas nacionalmente têm se mostrado com frequência incorretas, para além da margem estatística de erro, nos últimos ciclos eleitorais dos EUA. Há fragilidades metodológicas relevantes nessas pesquisas – como a da incidência das preferências não reveladas (“voto envergonhado”) e a da correlação entre a intenção do voto e o comparecimento às urnas – que, até o momento, não têm qualquer indicação de terem sido equacionadas.

Igualmente importante do ponto de vista explicativo é o fato de que os EUA adotam, ainda, o sistema de eleição indireta para a presidência do país, com o uso de um Colégio Eleitoral, tal como ocorria no Brasil durante o período da ditadura militar. É comum se discutir o caráter antidemocrático da eleição indireta e como a mediação do voto popular por um Colégio Eleitoral resulta em maior dificuldade para a alternância no poder, favorecendo as forças políticas situacionistas e, sobretudo, dificultando a estruturação e o crescimento de novos movimentos e de partidos políticos alternativos aos já estabelecidos. O resultado é o engessamento das estruturas de poder existentes e a cristalização das desigualdades políticas.

Ocorre que essas conhecidas discussões têm um caráter unicamente qualitativo, tratando apenas da principiologia da representação democrática. Mas o traço do sistema de eleições majoritárias indiretas para cargos executivos que de fato impacta mais diretamente as projeções e pesquisas eleitorais de que tratamos aqui é o seu aspecto quantitativo. Uma vantagem de 12% nas sondagens nacionais de intenção de voto simplesmente não reflete a expressão matemática que essas intenções terão na votação final do Colégio Eleitoral – que é aquela que realmente determina quem será o próximo presidente dos EUA. É preciso deixar claro então que, mesmo que houvessem sido superadas as fragilidades metodológicas das pesquisas que apontam uma vantagem de 12% para o candidato democrata, isto é, mesmo que este número representasse (por mera coincidência) a diferença real nas intenções de voto em favor de Joe Biden, a três semanas do encerramento da votação o presidente Trump ainda poderia obter a reeleição em decorrência do mecanismo eleitoral indireto.

Diante do exposto, fica claro que duas análises adicionais – que infelizmente pouco frequentam os comentários especializados encontráveis na mídia brasileira – são minimamente necessárias para que as especulações feitas sobre a vantagem nas pesquisas nacionais americanas tenham mais consistência do que os palpites e boatos que cercam as corridas de cavalos.

A primeira dessas análises é um exame da cadeia de fatos e eventos que sabidamente podem afetar o rumo movediço da avaliação dos candidatos pelo eleitorado, em particular no período das seis semanas que antecedem o encerramento das eleições, em que tradicionalmente se verifica a maior volatilidade da opinião publica nesse terreno. Faltando então pouco menos de três semanas para o dia oficial da eleição, o exame deste último mês é de particular relevância para explicar o movimento da opinião eleitoral e até mesmo a liderança de Joe Biden nas sondagens nacionais de intenção de voto, em última análise.

O presidente Trump sofreu vários reveses nas últimas quatro semanas, no que toca aos dois principais quesitos de campanha: personalidade e programa (ou plataforma) eleitoral. O debate público com Biden foi considerado negativo de maneira incomumente universal, por quase todos os grupos demográficos e políticos consultados. Os dois candidatos foram mal avaliados pelos eleitores, mas a tática do presidente Trump para transmitir assertividade e liderança ao público foi percebida como agressiva e, mais grave, evasiva no que toca às principais questões em debate.

Um  segundo golpe importante para a campanha de Trump foi a divulgação pelo jornal New York Times das declarações de imposto de renda do presidente nos últimos anos. Diferentemente do eleitor médio brasileiro, que reage de maneira passional a alegações de desvios de conduta de membros da classe política (em geral com um clamor generalizado por punições extremas de destituição e prisão), mas que raramente priva os acusados do seu voto no pleito seguinte, os eleitores americanos tendem a refletir mais marcadamente nas urnas a sua desaprovação de práticas como a evasão fiscal de um presidente. A credibilidade pessoal de Trump foi atingida (para o que contribuiu a revelação do montante de suas dívidas, atingindo sua imagem de empresário bem-sucedido) , o que se constata na liderança de Biden na pergunta “Qual dos dois candidatos mais frequentemente diz a verdade?”, um dos poucos quesitos em que Hillary Clinton ficava atrás de Trump durante a campanha de 2016.

Por fim, no que toca ao quesito da plataforma para enfrentamento dos principais problemas do país, Trump tomou uma decisão que desapontou de modo importante um contingente de seus próprios eleitores, bem como daqueles classificados como independentes, ao postergar a definição no Congresso sobre a continuidade ou não de benefícios federais para assistência econômica aos americanos mais atingidos pela recessão deflagrada pela pandemia da Covid-19.  Os eleitores irão votar sem saber se receberão mais algum cheque do governo federal e a esta indefinição se somou a visibilidade dos esforços intensos de Trump no Congresso em prol da nomeação de uma juíza ultraconservadora para a Suprema Corte, uma prioridade que se revelou controversa para uma parcela expressiva do eleitorado.

Pode-se constatar que Biden está liderando em diversos estados cruciais, inclusive em alguns onde o candidato Donald Trump triunfou em 2016. Entretanto, a margem do candidato democrata não é muito melhor do que a de Hillary Clinton na mesma altura do ciclo eleitoral anterior. De fato, em vários casos, a vantagem de Biden é menor do que foi a de Clinton à frente de Trump – o que é significativo  dado que ela acabou perdendo a eleição

A segunda análise complementar indispensável para o balizamento das pesquisas eleitorais nacionais nos EUA é, claramente, o exame da situação da disputa nos estados chave para a obtenção da maioria dos votos no Colégio Eleitoral – os chamados swing states ou, mais genericamente, battleground states. No caso, esta análise se mostra tão importante pelos números ali apurados quanto, mais sutilmente, pelo que esses números deixam a desejar. Resumidamente, pode-se constatar que Biden está liderando em diversos desses estados cruciais, inclusive em alguns onde o então candidato Donald Trump triunfou em 2016. Entretanto, um exame mais cuidadoso destes números revela que a margem do candidato democrata não está muito melhor do que a de Hillary Clinton na mesma altura do ciclo eleitoral anterior. De fato, em vários casos a vantagem de Biden é menor do que foi a de Clinton à frente de Trump – o que é significativo dado que ela acabou perdendo a eleição.

Os eleitores americanos já estão atualmente votando em 45 estados, com 12 milhões de votos já consignados. Este número é de uma ordem grandeza inteiramente diferente do que o verificado em eleições anteriores a esta altura do ciclo (em 2016 o voto antecipado não chegou sequer a 0,1% deste total) e isto pode ser uma boa notícia para os democratas.


De fato, o mapa das sondagens estaduais mostra hoje uma clara liderança de Joe Biden. Mas os números dos votos no Colégio Eleitoral somados no lado direito da figura são enganosos, para dizer o mínimo. Os totais de votos atribuídos a cada candidato incluem os estados em que há, no momento, uma simples inclinação do eleitorado a favor de um ou de outro. Isto gera uma distorção muito significativa, pois Biden tem este tipo de liderança precária em seis estados, enquanto Trump está nesta posição em apenas um, o Texas. Se nesta simulação fossem computados somente os votos do Colégio Eleitoral daqueles estados marcados em cores firmes para cada candidato, ou seja, aqueles onde é baixa a probabilidade estimada de reversão do resultado, o total de ambos os candidatos estaria praticamente empatado.

A situação se torna ainda mais incerta quando examinamos de perto os últimos números dos dez mais importantes entre os estados de maior variação potencial nos resultados.

Entretanto, como foi sugerido no início deste artigo, a distorção real embutida nesses números com frequência tem sido superior à margem estatística de erro quando se trata das eleições presidenciais dos EUA. Vejamos os números que comparam a posição Biden, hoje, com Hillary Clinton neste mesmo momento da eleição 2016.

No estado da Pensilvânia, que os democratas geralmente precisam vencer para chegarem à Casa Branca, Clinton há quatro anos tinha uma vantagem virtualmente idêntica à que Biden tem agora, liderando Trump por 12 pontos (em 9 de outubro) quando Biden hoje lidera por 13. Clinton acabou perdendo esse estado por 44 mil votos (ou 0,7% do total). Algum fator interveniente de peso forçosamente terá havido, dado que a margem de erro da pesquisa que apurou a vantagem de Hillary Clinton naquela ocasião não poderia ser, pelo óbvio, de 12,7% ou maior.

Outro estado chave assinalado em cor azul leve no mapa atual (acima) é o do Wisconsin. Clinton tinha a esta altura uma liderança de 7% contra os 10% de Biden – que pela margem de erro podem ser, de fato, somente 6%. Repetiu-se a história da Pensilvânia e os democratas em 2016 perderam por 22 mil votos (de novo 0,7%), muito acima da margem de erro.

Examinemos, por último, a situação comparativa no estado chave de Michigan, palco de disputas acirradas e onde os democratas também geralmente precisam vencer, no sentido de quase nunca ganham a Casa Branca sem vencer nesse estado. Neste ponto da corrida, logo após o segundo debate eleitoral em 2016, Clinton tinha uma vantagem de 11,6%, maior do que os 8% que Biden tem agora e – mais uma vez – acabou perdendo o estado por pouco mais de 10 mil votos (apenas 0,23%), o que permitiu que Donald Trump levasse os votos desse estado do meio-oeste para vencer a eleição no Colégio Eleitoral.

Tentativas de respaldar o presumido favoritismo da candidatura de Joe Biden na sua maior capacidade de angariar fundos de campanha – em especial para financiar gastos publicitários – revelam-se ainda menos verossímeis. Segundo a conhecida organização não governamental Open Secrets, o gasto publicitário dos democratas com tempo de televisão na campanha presidencial de 2016 foi quase o dobro dos republicanos, o que indica que o empresariado norte-americano apostou bem mais forte em Hillary Clinton do que em Donald Trump. Os números deste ano estão longe de estarem  fechados, mas um levantamento desses gastos nos dez principais swing states, encomendado pela CNN, mostra que, novamente, os democratas estão comprando ali quase o dobro do tempo de televisão que os republicanos (US$ 138,9 milhões contra US$ 71,7 milhões).

Ocorre que, em 2016, Trump conseguiu cobertura gratuita nos noticiários com seus gestos e declarações polêmicas e com suas afirmações radicais, que chamavam a atenção e se tornavam “notícia” justamente pelo frequente contrassenso que representavam. Uma estimativa da empresa de análise de mercado MediaQuant calculou que o tempo de cobertura não pago que Trump conseguiu em 2016 valia US$ 5 bilhões, enquanto Hilary Clinton recebeu cobertura noticiosa equivalente a US$ 3,24 bilhões. Tendo em vista que esses valores, para ambos os candidatos, são muitas vezes superiores aos gastos oficiais com anúncios de televisão e que, hoje, Trump ocupa a Casa Branca, não há qualquer razão para supor que seus gastos menores se refletirão numa menor exposição junto ao eleitorado – da mesma forma não o fizeram na eleição anterior.

Fora do Brasil, vêm sendo divulgadas análises que focalizam aspectos específicos da disputa eleitoral norte-americana, como por exemplo o comportamento de grupos-alvo de eleitores (por etnia, instrução, poder aquisitivo, gênero, e região), que serviriam de pedra de toque para deslindar os cenários derivados das projeções estatísticas e atribuir-lhes um grau mais elevado de confiabilidade.* Permanece, porém, o fato de que nenhum desses esforços para burilar ou prover maior respaldo metodológico às inferências construídas a partir dos tradicionais instrumentos das pesquisas de intenção de voto consegue superar as fragilidades estruturais desse instrumental mencionadas na abertura do presente artigo no que toca às eleições presidenciais dos EUA. Dentre todas essas fragilidades, aquela que consistentemente exibe a maior capacidade de impactar os resultados quantitativos dessas eleições é, sem dúvida, a variabilidade do comparecimento às urnas ou, mais precisamente, do exercício efetivo do voto.

As diversas tentativas feitas no passado de tabular os fatores aos quais responde essa variável demonstraram que esses fatores são simultaneamente muito numerosos e fortemente contingentes. Multiplicidade causal e elevada contingência e/ou aleatoriedade de incidência resumem, de forma sintética, os principais obstáculos à eficácia de modelos comportamentais preditivos, particularmente quando a sua função objetivo é definida de maneira restritiva – no caso, binária. Diante de um alto grau de indeterminação da incidência dos parâmetros da previsão pretendida, a correlação de qualquer base empírica com um dado padrão de resultados é intrinsecamente desprezível.

Em outras palavras, sem a possibilidade de saber de antemão qual será o padrão de comparecimento para efetivo exercício do voto (de estimação extremamente problemática), a tentativa de prever qual será a real correlação entre o padrão das respostas obtidas nas sondagens e a composição do eleitorado que concretamente votará é extremamente precária. Por conseguinte, os resultados previstos com base nessas sondagens padecerão estruturalmente de uma confiança estatística muito baixa. Claramente, esta dificuldade é agravada pelo sistema indireto de cômputo dos votos e pela arbitrariedade das diferentes regras que determinam a atribuição dos votos aos diferentes estados no Colégio Eleitoral.

De um ponto de vista estritamente metodológico, a estimação das margens de erro das pesquisas de intenção de voto presidencial nos EUA, apesar de elevada, reflete apenas o quanto podemos esperar que os números apurados reflitam adequadamente o posicionamento do universo de eleitores daquele estado ou município no momento daquela apuração. Já a correspondência entre esse posicionamento eleitoral estimado e o perfil do voto do subconjunto de eleitores (complexa e contingentemente determinado) que efetivamente exercerá o voto é extremamente incerta – e tende a se expressar mais na disparidade do que na confluência.

Em conclusão, as projeções estatísticas de resultados dos modelos tradicionais de sondagem de opinião serão de muito baixa relevância em qualquer eleição presidencial nos EUA em que haja uma maior polarização do eleitorado (no sentido de setores cada vez menores do eleitorado cujo voto será decidido durante o ciclo eleitoral e não fora dele), como têm sido as eleições mais recentes e, mantidas as regras eleitorais vigentes, tenderão a ser as subsequentes.

A variável crucial do efetivo exercício do voto, afetado por uma grande quantidade potencial de fatores de influência, torna a predição do resultado de eleições presidenciais (ou, mais precisamente, majoritárias) polarizadas extremamente difícil, em especial sob o sistema de eleições indiretas. Como elemento de ampliação adicional desses efeitos, o padrão de resposta comportamental dos eleitores no contexto de restrições físicas à mobilidade por risco à saúde pública, como ocorre em 2020, torna o resultado do pleito, para quaisquer propósitos práticos, imprevisível.

Portanto, examinadas todas as considerações feitas nas seções acima, se afigura inteiramente possível uma vitória do partido democrata com a candidatura de Joe Biden. E se configura como igualmente possível a reeleição de Donald Trump – de tal forma que nenhum dos resultados possíveis possa ser considerado surpreendente.

⌘⌘

⌘⌘⌘


* Com outras abordagens teóricas, há também esforços para vincular possíveis resultados eleitorais ao perfil sociopolítico das alianças e apoios dos grupos partidários em disputa no empresariado (usualmente por setor de atividade, mas com ênfase mais frequente nas corporações de comunicação social, nas finanças e nas indústrias estratégicas) e mesmo outros, frequentemente menos exigentes quanto aos parâmetros que utilizam para estabelecer relações causais, que procuram avaliar a perspectiva de prevalência de uma ou outra organização partidária com base nos seus vínculos de representação simbólica, cultural e valorativa com diversas narrativas etnológicas.

Liberar armas e taxar livros

Em coluna publicada na FSP de hoje, o editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, discute a falácia perniciosa cometida pelo ministro Paulo Guedes – mais uma – ao taxar a compra de livros no Brasil.

Do absurdo de passar a cobrar impostos sobre os livros num país onde se isentam de tributos por completo os bilhões faturados pelas igrejas e outros empreendimentos religiosos, mediante vastos esquemas de arrecadação, não é preciso comentar. As considerações feitas no artigo indicado são, para isto, amplamente suficientes.

Mas cabe prestar maior atenção a um aspecto secundário dessa história, a saber, o fato de que em sua defesa da taxação dos livros P. Guedes conta, segundo a matéria, com o apoio público do “tributarista” Bernard Appy.

A coluna de Schwarcz foi generosa para com o PT ao não identificar mais claramente quem é Appy, dado que ele foi membro do partido e frequentou por muitas décadas o círculo interno de seus dirigentes paulistas. Isto se deu apesar de suas posições terem sempre sido abertamente direitistas, muitas beirando o reacionarismo.

Economista, Appy estava já na primeira leva de ortodoxos brasileiros que, nos anos 90, resolveram deixar para trás os comedimentos e ressalvas da teoria neoclássica tradicional, para abraçarem o novelo de contradições e a maior liberdade de posicionamentos (pela ausência de rigor técnico) que caracterizam o discurso neoliberal.

Fora dos quadros do PT, a maioria das pessoas razoáveis dificilmente associaria esta opção ideológica com uma militância em prol do partido das greves do ABC. Os dirigentes petistas, porém, jamais enxergaram nisto qualquer problema ou dificuldade. Muito querido em meio aos caciques partidários, Appy ocupou posições de proa na equipe econômica do governo Lula. Foi por vários anos Secretário Executivo do Ministério da Fazenda (o segundo na hierarquia da pasta) e, posteriormente, foi também Secretário de Política Econômica, Presidente do Conselho de Administração do Banco do Brasil e Secretário da Reforma Tributária – cargo no qual o sucedi quando deixou o governo.

No exercício desses cargos, o economista sempre se mostrou coerente, trabalhando de forma invariante pelo arrocho fiscal e contrariamente à criação e à implantação do PAC, do Fundo Soberano e à regra do aumento real do salário mínimo.

Atuando dessa forma dentro do Ministério da Fazenda e defendendo abertamente essas mesmas posições em seus discursos públicos do período, jamais faltaram a Appy o prestígio político e o apoio pessoal dos dirigentes de seu partido e dos membros do governo.

O economista somente resolveu deixar o governo quando suas posições fiscalistas começaram a ser derrotadas com maior frequência. Mas sua saída se deu por moto próprio pois, caso assim o desejasse, Appy teria podido permanecer ainda o tempo que quisesse, atuando abertamente contra a agenda desenvolvimentista de crescimento com distribuição de renda que o governo Lula decidiu adotar a partir de 2006.

Na sequência da Lava Jato, Appy se desvinculou do PT. Mas, durante anos, sentiu-se à vontade combatendo tanto o investimento público como a recuperação do poder de compra dos salários, sempre em nome de aumentar o superávit primário. Em se tratando de um economista que atuou abertamente nessa direção, a despeito fazer parte de um partido e de um governo liderados por um torneiro mecânico, não deveria causar surpresa a ninguém que, agora, venha a público afirmar que o livro é um artigo de luxo e que assim deve ser taxado.

O episódio obriga a uma reflexão: o que esperar do embate político em prol dos interesses dos assalariados e excluídos num país em que posições ideológicas como essas são aceitas, e mesmo encampadas, pelo seu maior partido de esquerda?

⌘⌘

⌘⌘⌘