Miscelânea/Mishmash/Méli-Mélo

25.10.2020

Jó e o Mal Absurdo

Lembro-me de ter lido num livro  de Jean Daniel, desaparecido há poucos meses, sobre a estima que o autor tinha pelo “Livro de Jó”, ao qual ele se referia com frequência. Ocorre que tenho uma amiga protestante que o leva sempre consigo e o folheia sempre que pode fazer um intervalo de meditação.

Perguntada sobre o porquê durante um encontro casual – e conhecedora das minhas idiossincrasias teológicas – essa amiga decidiu me emprestar o livro “Job, ou le problème du mal – Un éloge de l’absurde” (Editions du Cerf, 240 pp.), de Alain Houziaux . O romance é um mergulho na história desse rico mercador para quem a vida sorri e que, de repente, se vê despojado de tudo, fortuna, família, afeto. Só lhe restam três amigos – e Deus.

A pergunta que Jó faz, “por que eu, o que eu fiz?”, é desdobrada sob várias abordagens: a de sua culpa, expressa por seus três amigos; a de sua personalidade; a da natureza do Deus a que ele clama; e, especialmente, a do Mal (assim mesmo, com “M” maiúsculo). No livro, as respostas de Deus não são compreensíveis se assumirmos um ponto de vista conformista e tradicional. Somos convidados, em um texto de contornos muito nítidos, a uma leitura refrescantemente nova no que diz respeito à postura de Jó.

Jó e sua Mulher (óleo) de Georges de la Tour (1593-1652); Musée Départemental des Vosges, Epinal, França

O herói bíblico se revela narcisista, vitimizando-se  tanto em relação ao seu sofrimento sem razão – ao menos segundo ele alega sentado sobre sua pilha de dejetos  – como em relação aos argumentos enigmáticos que Deus utiliza em suas respostas. Mas, ao contrário do que os seus amigos querem persuadi-lo, o mal com que Jó se confronta é o mal absoluto, o mal a troco de nada. Vista por Houziaux, a pergunta do Livro de Jó é: “Deus é o nome que devemos dar à Justiça […] ou é o Autor e a Causa daquilo que, para nós, é incompreensível e absurdo?

Na verdade, para o autor, não existe mal a menos que seja absurdo, discordante, além da compreensão e da representação humanas. O que ele propõe é uma reflexão, fragmentada e restringida pelos nossos próprios limites, sobre a nossa possibilidade de compreensão do mundo. É, em última instância, uma visão totalmente nova de Deus. Longe do Deus vingador do Velho Testamento e do Deus da misericórdia retratado nos Evangelhos por meio da personagem do Cristo, seria Ele o autor do mal absoluto?

Ler esse livro não requer qualquer esforço, pois ele é claro e acessível, seja o leitor crente ou ateu. É um texto instigante porque coloca a questão da relação entre o homem e a transcendência, a questão da fé, de uma forma nova e iluminadora, despojada do vocabulário religioso. Estamos aqui diante da questão do mal absoluto, tantas vezes tratada pelos filósofos. Spinoza, Nietzsche, ou mesmo Simone Weil, poderiam reconhecer suas inquietudes nesta reflexão corajosa e revigorante sobre a ideia de Deus e do mal.

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31.08.2020

Recentemente, foi considerada suspeita de parcialidade uma sentença de um notório juiz brasileiro que se valeu do cargo para ganhar a projeção necessária para o seu ingresso na política. Na sequência, outros julgamentos ainda mais notórios da mesma personagem aguardam a apuração de sua imparcialidade.

Como era de se esperar, diversas vozes que condividiam os mesmos adversários políticos do então juiz e, na ocasião, deram todo o seu apoio público para que o tribunal deste fosse usado para atingir esses inimigos comuns, agora gritam que declarar a suspeição e parcialidade dos julgamentos seria o mesmo que “consagrar a impunidade” no Brasil.

Essa retórica culpabilista faz lembrar a importância de um argumento histórico formulado pelo imperador romano Juliano, que reinou de 361 a 363 d.C., no julgamento de um ex-governador da província da Gália Narbonense, que ele presidia de ofício.


O episódio é narrado pelo historiador Amiano Marcelino em sua História escrita no próprio séc. IV, poucos anos após o ocorrido. Ele conta que o governador, chamado Numério, havia sido acusado de desvio de recursos públicos por um seu inimigo político, um aristocrtata chamado Delfídio. O acusado, porém, apresentou sua defesa perante o imperador, negando as acusações de maneira veemente e “não podendo ser refutado em nenhuma de suas colocações” (nec posset in quoquam confutari).

Nessa altura, Delfídio, descrito como sendo um orador muito tenaz (orator acerrimus) tentou encobrir a consistência da defesa de Numério usando um argumento retórico:

Ecquis, florentissime Caesar, nocens esse poterit usquam, si negare sufficiet?
“Poderá alguém jamais ser culpado, venturosíssimo César, onde quer que seja, se apenas negar (a acusação) for bastante?”

O imperador então respondeu:

Ecquis innocens esse poterit, si accusasse sufficiet?
“Poderá alguém jamais ser inocentado, se apenas acusá-lo for bastante?” E inocentou o acusado.

É bem verdade que se Juliano, que julgava o caso, estivesse trabalhando coordenadamente com o acusador em busca da condenação, possivelmente o desfecho seria outro. Mas esta já é uma história de outros tempos.

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29.08.2020

Em 1953, uma excavação das Termas de Talara, na ilha de Astipaleia, no Dodecaneso, descobriu um mosaico do período romano tardio, que servia de piso a uma das salas de banho.



O mosaico traz no centro Hélio, o deus-sol, segurando o globo terrestre e cercado pelos símbolos dos 12 signos do Zodíaco, em disposição circular e sentido anti-horário. São retratados também quatro grupos com personificações dos meses solares do ano – da mesma forma que o zódíaco representa o calendário lunar. Em cada ângulo do mosaico acham-se figuras que simbolizam as quatro estações.

A datação indica que as termas foram erguidas no século IV da era cristã, que foi exatamente o período em que o poder político do cristianismo cresceu exponencialmente no Império Romano, na esteira do Édito de Milão (em 313) e, sobretudo, após a derrota de Licínio (325), até então imperador do Ocidente.

Uma questão pode ser suscitada. Poderia o mosaico ter sido uma iniciativa dos administradores locais de Astipaleia para agradar o imperador Juliano? A especulação (que, a rigor, não passa disto) pode fazer sentido, dado que o Dodecaneso fazia parte do império do Oriente e que o culto do Sol Inuictus, ainda muito popular entre os soldados de Roma, deixou de constar das moedas imperiais, em que figurou durante um século, quando Constantino assumiu sozinho o Império.

Assim, o breve reinado de Juliano (361-363) pode, de fato, ter sido o ensejo da feitura do mosaico de Talara, que não teria tido a simpatia dos governantes da casa de Constantino.

Mais de um milênio depois, no séc. XVII, Jesus foi transposto para o lugar antes ocupado pelo deus-sol, neste afresco da catedral do Pilar Vivo (Svetitskhoveli), na Geórgia. E, no lugar dos doze meses do ano, entraram os doze apóstolos.


A prosseguir esta sequência, será curioso imaginar quais figurações substituirão Jesus e seus apóstolos dentro de cerca de seis séculos, ao redor da época em que a representação icônica da catedral georgiana completar seus mil anos de existência.

Só o que é certo é que as religiões vêm e vão; a cerveja e o vinho permanecem.


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