“O Brasil rumo à estagnação completa”

O titulo acima é de um artigo de E. F. S. Prado, cuja leitura vale a pena. O diagnóstico da trajetória da economia brasileira nas últimas décadas está, ali, bem descrito, algo raro nas análises econômicas que abrangem períodos um pouco mais longos no Brasil.

Neste sentido, observar as tendências e compreender os movimentos ocorridos – e por que ocorreram nas dimensões e magnitudes registradas – pode ser um exercício muito útil para os que, por qualquer razão, ainda se ocupam em estudar a economia brasileira.

Por outro lado, é preciso registrar que, no tocante às conclusões que apresenta a partir de seu diagnóstico correto, o artigo deixa muito a desejar. Isto decorre de uma limitação de partida, qual seja, a visão nacionalista de direita (ou “centro-direita” como alguns insistem) que, deliberadamente, trata os interesses do capital industrial, do agronegócio e do sistema financeiro como se foram divergentes, ou estruturalmente oponíveis no Brasil.

Trata-se de uma cegueira seletiva imposta pelo caráter teleológico da abordagem utilizada por um amplo grupo de autores – em sua maioria sediados em SP. Nessa abordagem, o objetivo final não é o de realizar uma análise descritiva e metodologicamente rigorosa das forças em ação na sociedade brasileira, mas o propósito normativo de corrigir e aperfeiçoar a trajetória do capitalismo brasileiro, buscando não apenas maior dinamismo econômico, mas também maior modernidade regulatória e, todo o demais permitindo, alguma civilidade social.

Dessa perspectiva finalística nasce a contraposição artificial feita no artigo citado, entre as diversas frações do capital, de um lado, e a fração financeira, de outro, no Brasil atual. Esta contraposição, contudo, passa ao largo da adaptação histórica promovida paulatinamente pelos próprios capitalistas brasileiros desde quando a adoção do padrão-dólar flexível pelos Estados Unidos (começando nos anos 70), determinou um predomínio crescente do sistema financeiro internacional no direcionamento e nos ritmos da atividade econômica em nível global. (Cf. https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-06182019000300621)

Os capitalistas nacionais demonstraram grande versatilidade no processo de adaptação a esse novo padrão sistêmico, a essa nova lógica de acumulação internacional do capital, promovendo a “financeirização” da sua própria base patrimonial mesmo  quando esta tinha sua origem da exploração de outros setores econômicos.

Assim é que diversos grupos econômicos brasileiros, que vão desde a química pesada até setores ligados às atividades de construção civil e outros, trataram de incorporar ou de vincularem-se a instituições financeiras por eles controladas, ou, no mínimo, de adotar como principal estratégia de gestão patrimonial de seus grupos a administração financeira de tesouraria, particularmente a expansão das aplicações em títulos públicos nas suas empresas. Com isto, pode-se dizer que, a rigor, há pelo menos 40 anos a burguesia nacional é, toda ela, rentista.

Este quadro deixa patente que nenhum modelo nacionalista de desenvolvimento autônomo para o Brasil pode ser implantado ao arrepio dos interesses financeiros dos capitalistas locais (e seus sócios externos), ou mediante uma solução de comprimisso ou “acordo de convivência” com esses interesses.

A ideia do “Brasil Grande”, ou do “Brasil potência”, ou do “projeto estratégico nacional”, como se queira chamar, está hoje inafastavelmente ligada à possibilidade de uma ruptura radical com o modelo de capitalismo existente no país – envolvendo, possivelmente, alterações nas atuais relações de propriedade.

A trajetória de todas essas décadas torna, assim, bastante improvável que, a menos de uma ruptura do arranjo de interesses de classe em vigência no Brasil, possa ser superado o padrão de longo prazo que prevalece hoje no país.

Mais especificamente, mantido o consenso político que promove, sustenta e recompensa as políticas públicas fiscalistas e o rentismo, não há qualquer indicação de que seja possível sair da trajetória de baixo crescimento econômico (pontuado por eventuais voos de galinha) e de baixa relevância da produção nacional autônoma de tecnologia e inovações, cada vez mais determinante da inserção econômica internacional dos países no limiar da 4ª revolução industrial.

Pelas mesmas razões, e com uma causalidade ainda mais forte, na medida em que se perpetue o padrão de longo prazo mencionado, a possibilidade da implantação de um modelo socioeconômico que permita ao Brasil alcançar, de forma sustentada, padrões mínimos de bem-estar social para a maioria da sua população, está simplesmente fora de questão.

Não há solução técnica ou projeto de desenvolvimento – por mais bem desenhados que sejam – que tenham o condão de transformar, de per si, as estruturas de poder econômico e político que mantêm o país em sua condição estagnada, excludente e periférica.

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Um comentário em ““O Brasil rumo à estagnação completa””

  1. Obrigado pela resenha.
    Para mim, o capitalismo está em seu ocaso.
    E vai destruir a humanidade porque só se sonha com a sua continuidade.
    Você criou um monstro e depois se divertiu tentando destruí-lo.
    EFSP

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